Boa parte de quem tem divertículos no intestino nunca vai sentir nada relacionado a eles, e é exatamente esse silêncio que torna a diverticulite traiçoeira.
A condição pode ficar anos sem dar sinal e, quando inflama, transformar um desconforto que parecia banal numa dor que leva ao pronto-socorro em poucas horas.
Explicar a diferença entre ter divertículos e ter diverticulite, e ajudar o paciente a reconhecer o momento em que o quadro deixa de ser simples observação e passa a ser urgência, é o que considero mais decisivo nesse tipo de crise.
O que é a diverticulite?
Divertículos são pequenas bolsas que se formam na parede do intestino grosso, geralmente associadas a anos de pressão elevada dentro do intestino, favorecida por uma dieta pobre em fibras.
Chamo de doença diverticular ou diverticulose o simples fato de ter divertículos sem inflamação, e raramente encontro sintomas nesses casos.
A diverticulite acontece quando um ou mais desses divertículos inflamam ou infeccionam. Diferente da diverticulose silenciosa, a diverticulite costuma doer, e o quadro pode evoluir rápido: de um desconforto leve para uma dor abdominal intensa em questão de horas.
Toda diverticulite vira emergência?
Não. Mas o que torna a condição perigosa é a possibilidade de evolução rápida para complicação: perfuração do divertículo inflamado, formação de abscesso, obstrução intestinal ou peritonite, a infecção generalizada da cavidade abdominal.
Não escrevo isso para gerar medo desproporcional, mas para que o sinal certo, na hora certa, seja levado a sério.
Quais são os sintomas da diverticulite?
O sintoma que mais encontro é dor abdominal, geralmente concentrada do lado esquerdo, embaixo, onde fica a maior parte do intestino grosso mais sujeita a formar divertículos.
Essa dor costuma vir acompanhada de febre, sinal de processo infeccioso ou inflamatório em curso; alteração do hábito intestinal, com constipação ou diarreia; náusea e, às vezes, vômito; e sensibilidade ao toque na região afetada.
Os sinais que me levam a pensar em complicação: dor muito intensa e súbita, febre alta persistente, abdômen rígido e distendido, incapacidade de eliminar gases ou fezes, sangramento intestinal volumóso.
Esse conjunto pede avaliação de urgência, não consulta agendada para os próximos dias.
Quem tem mais risco de desenvolver diverticulite?
Os principais fatores que investigo são: dieta pobre em fibras, que aumenta a pressão dentro do intestino; obesidade; sedentarismo; tabagismo; uso frequente de anti-inflamatórios; e idade acima de 50 anos, quando a prevalência de divertículos já é alta. Histórico familiar também parece ter algum peso, embora o estilo de vida continue sendo o fator mais modificável.
Ter divertículos não significa que a diverticulite é inevitável. A maioria dos pacientes com divertículos passa a vida inteira sem nenhum episódio de inflamação.
Costumo esclarecer também o que não é diverticulite, para evitar alarme desnecessário. Cólica intestinal passageira, gases após uma refeição pesada ou desconforto leve que melhora sozinho em poucas horas raramente indicam inflamação de divertículo.
O que me faz suspeitar é a combinação de dor mais localizada, persistente, com sinais associados como febre ou alteração clara do hábito intestinal.
Quando procurar atendimento de emergência?
Dor abdominal intensa e súbita, febre alta, abdômen rígido ou distendido, ou incapacidade de eliminar gases e fezes são sinais para buscar pronto-socorro imediatamente, sem esperar o dia seguinte.
Fora desse cenário, oriento avaliação médica em prazo curto para dor abdominal leve a moderada mesmo que não seja emergencial.
A diferença entre esperar e agir rápido, na minha experiência, é literalmente a diferença entre um tratamento clínico simples e uma cirurgia de urgência.
Como confirmo o diagnóstico?
Começo pela história clínica e pelo exame físico, buscando o ponto de dor característico e sinais de irritação da parede abdominal.
Peço tomografia computadorizada de abdômen, meu exame de escolha na fase aguda: confirma o diagnóstico, mostra a extensão da inflamação e identifica complicações como abscesso ou perfuração.
A colonoscopia, importante para confirmar a presença dos divertículos e afastar outras causas, só peço depois que a fase aguda passa, nunca durante a crise, pelo risco de perfuração do intestino inflamado durante o exame.
Como conduzo o tratamento da diverticulite?
Na maioria dos casos, minha conduta preferencial é a internação hospitalar, mesmo que por 48 a 72 horas.
O jejum associado ao antibiótico endovenoso permite um controle mais seguro da inflamação, reduz o risco de progressão para complicação e diminui a chance de um segundo episódio rebote logo após o tratamento.
Casos muito selecionados, com quadro leve, sem febre relevante e boa tolerância clínica, podem ser conduzidos de forma ambulatorial, mas isso é a exceção, não a regra.
Casos com abscesso pequeno trato com antibiótico e drenagem guiada por imagem, sem necessidade de cirurgia imediata.
Indico cirurgia em cenários específicos: perfuração com peritonite, obstrução intestinal, abscesso que não responde à drenagem, ou episódios recorrentes que passam a comprometer a qualidade de vida do paciente.
Perguntas frequentes sobre diverticulite
Diverticulite tem cura?
Os divertículos já formados não desaparecem, e por isso não existe cura no sentido de reverter a condição estrutural. Mas os episódios de inflamação têm tratamento, e o risco de recorrência pode ser bastante reduzido com hábitos alimentares adequados e acompanhamento médico.
Posso comer sementes e castañhas se já tive diverticulite?
Não existe indicação de proibir sementes e grãos de forma generalizada. As evidências atuais não sustentam essa restrição antiga. O que oriento, porém, é atenção ao tamanho: sementes grandes, com diâmetro maior do que o de uma semente de melancia ou maracujá, merecem mais cuidado. Nesses casos, prefiro que sejam moídas ou partidas antes do consumo. O objetivo é evitar que fragmentos maiores fiquem retidos dentro dos divertículos e favoreçam inflamação.
Diverticulite pode voltar depois do tratamento?
Pode. Uma parte dos pacientes que já teve um episódio apresenta recorrência ao longo dos anos. É por isso que, depois da fase aguda, mantenho o acompanhamento e oriento ajuste de hábitos, principalmente alimentação rica em fibras, não só o tratamento da crise isolada.
Acompanhamento de diverticulite com o Dr. Andreas Koszka
A diverticulite é um bom exemplo de por que dor abdominal não deve ser tratada por conta própria até “ver se passa”.
O mesmo quadro que responde bem a um tratamento conduzido cedo pode se tornar uma cirurgia de urgência quando a avaliação é adiada.
Dr. Andreas Koszka, cirurgião do aparelho digestivo com atuação em gastroenterologia clínica (CRM 108840, RQE 104187), atende em São Paulo e conduz tanto o tratamento clínico quanto a decisão cirúrgica em casos de diverticulite, sempre a partir de avaliação individualizada.
Para tratar um episódio recente ou entender seu risco de recorrência, agende uma consulta. Diante de dor intensa com febre ou abdômen rígido, procure um pronto-socorro imediatamente.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica presencial.